Estilhaço

   Acordei despedaçada. Estilhaços de mim espalhados pela cama, vestígios no travesseiro, resquícios pelos cantos do quarto. Acordei desnorteada. Pedaços perdidos e confusos tentando buscar um ponto de encontro. Lembranças amassadas e desejos embrulhados no lençol. Certezas pisoteadas pelo corredor e incertezas emaranhadas no cabelo. Falha minha deixar você se ocupar de cada espaço meu. Falha minha não controlar, não evitar. Falha minha perder a hora, os medos e os segredos.

   Esqueci da minha filosofia homeopática e me enchi de você como quem não conhece limites. Bebi de você como quem quer esquecer mágoas inventadas. Me aninhei como se pudesse sempre voltar. Fiz de você o sol em tempo de friagem. Água em tempo de estiagem. Adormeci em você minhas histórias para ouvi-las no silêncio do teu olhar.

    Acordei espalhada buscando o centro, o núcleo, o fundo. Acordei e me assustei com os buracos no meu peito. Acordei entre cacos porque a saudade explodiu em mim quando percebi que você não estava ao meu lado. Acordei procurando os pedaços que deixei você levar na mala.

7 Rompendo o asfalto:

Ba. disse...

às vezes acordar assim é inevitável.
(já estava com saudadades de ler algo bonito assim, verdadeiro)

;* encantador.

Leni disse...

Ah minha querida.
Há anos acordo desta forma. Procuro algo para forrar o vazio, mas as manhãs gélidas sempre abrem mais espaço onde já há tanto estrago. Mas é inevitável, encho-me de tristezas, procuro a tristeza dos outros também para sentir-me viva....
Virarei freqüentadora assídua de seu cantinho. Adorei aqui, obrigada pela visita.
beijos

「ϻȝƚɋɣαɦȡ 」 disse...

É tão bonito quanto triste. Manhãs chuvosas, apesar do Sol impetuoso do lado de fora...


BjO'ss

Charlie B. disse...

"Fiz de você sol em tempo de friagem.. água em tempo de estiagem"..

Sem dúvidas foi o melhor texto do meu dia, e olha que já li mais de vinte hoje. Parabéns. Às vezes eu também explodo de saudades, fico em pedaços e não me sinto mal, eu me sinto vivo.

Beijos, Charlie B.

Rafael Vaz disse...

"Acordei procurando os pedaços que deixe você levar na mala".

Se levarmos em conta o quanto levam de nós, era pra sermos pecinhas de Tetris.

Thaís disse...

Me acovardo a fazer qualquer comentário no seu blog, pois tudo que imagino tentar traduzir em palavras parece um tanto simplório.

Você é uma poetiza da alma!
Parabéns!

Luana Gabriela disse...

Sabe o que é pior?
Essa mala se perde e nunca vamos recuperá-la!

Bjos

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