Exceção.

Andei sonhando com um pacote mágico de cirurgias reparadoras. Mas ao contrário da maioria, queria reparar o lado que ninguém vê. Essa é a parte que vem me incomodando... maldita hora em que fui dar valor a essa tal de alma. Sou otimista, até demais. E ando suspirando por aí, pensando numa vida sem os estragos de uma visão tão poética. Engraçado, apesar de careta, pego-me com sentimentos um tanto vanguardistas. Vai ver o novo é o velho e já que não há mais muita coisa a se fazer, a novidade seja reinventar o antigo. [Não era bem isso que eu ia dizer quando pensei nesse parágrafo.]

03/02
Voltando: sonhos que são mais ou menos assim... - Doutor, quero retirar essa sensibilidade, esse cisto anda me atrapalhando, sabe? - Você sente dores?, diz ele de olhos no papel (sabem como são os médicos). - Sim, dores terríveis no peito, uma sensação de sufocamento, às vezes até choro. - Melhora? (ainda com os olhos pregados no papel que ele rabisca sem paciência). - Sim, às vezes sim, mas em outras me parece que as lágrimas alimentam outras dores... Falando nisso, também gostaria de saber em quanto fica uma cirurgia para eliminar essas palpitações que me deixam boba, rindo pelos cantos e pelas praças públicas. Acho que deve ser paixão por... ah sei lá, por quase tudo. Tem sido um embaraço e tanto viver assim! - Aham. - Acho que não posso me adaptar, doutor. Meus olhos brilham de ver coisas simples e sei que as pessoas não entendem. Sinto-me um peixe fora d'água, sabe? Basta falar das pessoas que amo ou de algo que me dá desejo de vida que sinto essas palpitações estranhas. Sem contar a intensidade. - Aham (agora ele desenha algo parecido com um peixe, pergunto-me o que ele pensa). - É, a intensidade. Dá pra sugar junto com a sensibilidade? Isso tudo fica junto, numa área em comum? Pode levar tudo. Jogar fora. Quero ser mais fria e até rude de vez em quando. Não quero mais educação gratuita e involuntária, dá pra ser? Ah, e será que assim você leva também o espírito de bondade? É que já vi que nesse mundo individualista uma pessoa assim, doente como eu, não poderá nunca ser aceita de verdade. É doutor, eu quero me adaptar. - Claro, claro (acho que pelo suposto alívio do término do meu desabafo, ele se anima e me olha pela primeira vez. Bonito ele, mas os olhos não me dizem nada. Eu gosto dos olhos, sabe? Uma pessoa me interessa pelo que os olhos dizem ou deixam de dizer. Gosto de olhos que se entregam, mas também gosto do mistério quando sei que há um universo a se descobrir). - Então, por enquanto é possível?  - Bem, a cirurgia é simples, mas sempre há o risco de sobrarem vestígios dessas coisas. Aí vai ser por sua conta e risco. Mas fique certa de que o que sobra não vai causar-lhe espasmos de alegria ou tristeza, o que sobra não causa nada. O seu cérebro vai registrar emoções de uma forma muito mais superficial e elas serão descartáveis. Você levará uma vida muito mais racional. Talvez completamente racional, eu acho. Suas relações vão se basear numa relação de necessidade e não mais de desejo, entende? As pessoas e coisas lhe serão úteis enquanto te oferecem benefícios sem risco de afetividade. Nada de dor. Nada de desilusões. - Garantido? - Sim, claro. Sou um ótimo médico, um dos melhores na minha área, senão o melhor ...(poupo-lhes dos próximos minutos em que ele fica a falar de sua capacitação infindavelmente, sem me dar muita atenção de fato, estava bem mais próximo de um discurso para enaltecer a si mesmo ou se auto-convencer. Houve um momento em que desliguei olhando para o aquário na parede. Vai saber).

05/03
Faz três dias que eu me recuperei. Seca. Linguagem seca. Olhar seco. Não sei, acho que só estou escrevendo porque não há mais merda nenhuma pra fazer. De fato, não sinto nada. Nada me apetece verdadeiramente. Na rua, hoje, vi dois gatos rolando na grama e nem parei pra brincar. Uma de minhas amigas falou alguma coisa ofensiva num tom alto e não me magoei. Na verdade, xinguei um palavrão de forma um tanto fria de volta. Ela não ligou e comemos uma pizza juntas depois. Palavrões não me afetam mais. O comportamento das pessoas, a fome do vizinho, a morte na tv também não. Tampouco poesias, músicas e coisas idiotas que chamaram profundas num tempo remoto. Arte? Não serve pra nada. Agora lembrei que não liguei pra minha mãe, nem me fez falta. Coloquei o cachorro e o gato pra dormirem do lado de fora, que agora essa coisa de carinhos e rabos abanando me enojam. Joguei aquela planta florida fora. Disse a meus alunos que eles devem aceitar o fato de que quase todos não terão futuro. Livrei-me das dores, dos medos e das ansiedades. Nenhuma preocupação. Anteontem bebi duas garrafas de vodka com uns caras que encontrei num bar da esquina. Nada demais, diversão temporária.

29/06
Nem me lembrava mais como era essa sensação de não ter controle, de ficar com a respiração descompassada, de não saber onde colocar as mãos. Não me lembrava, mas dentro de mim havia uma vaga memória, que como muitas outras foram alimentadas quando sem querer, olhei fundo nos teus olhos. Bastou um segundo para que tudo me invadisse violentamente. De repente eu lembrei de como me perdia no desenho castanho dos teus olhos e de como achava lindas o formato das tuas sobrancelhas. Num pensamento tímido me veio a força exigente do teu beijo e das tuas mãos. Não demorou até que tudo voltasse. Quis xingar quando meu peito bateu forte em reação ao teu sorriso, mas lá estavam meus defeitos  e limitações de volta. Lá estava eu, por inteira, com todas as minhas falhas; lá estava eu, sentindo-me novamente nua frente ao teu jeito de me desvendar. Involuntariamente, aninhei-me no teu abraço e era tudo  tão confortável, apesar das estranhezas que eu carregava, que decidi ficar por mais um tempo e um pouco mais.

[É claro que desisti dos fracassos experimentais da medicina. Apesar de todas essas regras e levantamento de resultados comuns, há sempre uma exceção. Ele foi a minha. A minha resistência e o meu devaneio. Talvez um dia eu venha a ser a exceção dele. Mas isso já é outro sonho.]

0 Rompendo o asfalto:

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