sem segredos.

Caio,

Perdoa o meu jeito obsoleto de comunicar-me contigo. Sei bem que temos e-mail, msn, twitter e por aí vai. Mas o jeito que gosto e confio em você vem de muito antes dessas novas mídias e, de alguma forma, escrever uma carta nessa minha caligrafia bagunçada que você tanto gosta me deixa mais próxima de ti. Espero que você entenda.
Escrevo porque estive pensando bastante em você (em nós) nas últimas semanas. Mais do que eu deveria, na verdade. Essa distância que nos separa me parece desumana, fora do normal, absurdamente inaceitável. E ela pareceu ampliar-se ainda mais quando recebi teu último cartão postal... Foi difícil não reagir violentamente à tua frase. Não se escreve uma coisa dessas a milhares de quilômetros de distância quando não posso te abraçar apertado e te beijar enlouquecidamente dizendo que sinto a mesma coisa. Foi maldade e fiquei desarmada por um bom tempo (talvez alguns poucos segundos antes de recuperar o ar, mas que se arrastaram como horas de sofreguidão), pensando em como digerir o fato de descobrir que a minha paixão não era unilateral. Foi tanta intensidade que não sabia como entrar em contato com você de novo.
Sei bem o que você pensou. Você achou que eu tivesse me assustado tanto a ponto de desaparecer do msn, ao ponto de ignorar tuas mensagens, ao ponto de nem comentar no teu blog. Nada disso. É que era demais pra mim e eu não saberia viver como antes sabendo do que agora sei. Não saberia como lidar com a frieza do monitor ou com a linguagem curta dos sms quando em mim havia uma vontade enorme de gritar: - volta pra cá, pelo amor de Deus, que eu não aguento mais guardar isso tudo em mim!
Você me tomaria como louca, por certo. Ou não. Nunca sei como é aí do outro lado do mundo, não tenho ideia se ao ler minhas palavras nos teus olhos salta um sorriso ou uma risada de deboche. Eu não sei e não saber me corrói. Porque não me basta que você me narre as tuas aventuras, não me basta que você diga que precisa falar comigo pra dormir em paz. Bastava-me, agora não mais. Agora que sei, não me perdôo. Não sou capaz de me perdoar quando sei que passo quase todo o tempo desejando você aqui comigo. Não posso perdoar a ideia de que poderia ter sido diferente e que talvez dependesse de mim.
Minha letra te diz que escrevo rápido demais. É que se não for agora, desisto mais uma vez e também não sei lidar com os meus fracassos. Então eu preciso te dizer que eu queria. Queria muito mesmo, mas sou covarde, medrosa e desconfiada. Sou pateticamente apavorada. Sem contar que também sou extremamente burra: eu te deixei partir.
Apesar de todos os teus sinais, que eu achava que não entendia ou fingia não entender, eu te deixei entrar naquele avião. É, eu deixei. Nada me dói mais do que saber que eu poderia pedir para você ficar e que isso teria feito toda a diferença. Bastava coragem para dizer que eu queria você. Só você. E eu não tive essa coragem. Uma covardia de dar dó. Como pude sorrir enquanto você arrastava contigo toda a pulsação do meu peito? Como eu consegui te dizer que estava feliz pelas tuas decisões, quando tudo o que eu queria era ser a tua escolha? Como? Como?
Você não faz ideia do quanto eu me detestei naquele dia. Até então, eu não sabia que talvez aquilo era o que você queria ouvir, mas ainda assim eu me detestava por não ter arriscado. Eu me convencia incessantemente de que eu não via nos teus olhos o pedido pra eu dizer que você ficasse. Por um tempo eu acreditei em mim de forma até um tanto convincente. No entanto, bastou começarem tuas mensagens mais carinhosas para que as minhas certezas caíssem por terra.
Agora, alguns meses depois, eu leio mais uma vez a sua caligrafia miúda e trêmula para ter certeza de que isso tudo existe. Para ter certeza de que mesmo tão longe, estamos perto demais. Leio para ter certeza de que não há nada nesse mundo que eu deseje mais do que estar com você.
Sim, é isso. Estou escrevendo para livrar-me de vez da minha covardia e do meu medo. Essa carta pode não mudar nada, ou pode mudar tudo. E dessa vez eu escolho arriscar. Então, por favor, Caio, volta. Volta porque eu não suporto mais esse abismo físico. Volta porque eu quero menos distância entre teus dedos e o meu corpo. Volta porque eu não posso mais aguentar esse sol sem você para comentar dos meus vestidos. Volta porque eu quero fotos nossas, quero sussurros no cinema e um beijo antes de dormir. Volta porque eu quero você. E não porque seja uma necessidade doentia; eu posso viver sem você, mas não quero. Não mesmo.



3 Rompendo o asfalto:

Natália Corrêa disse...

Às suas últimas palavras sintetizaram todo o texto com uma beleza incrível: "E não porque seja uma necessidade doentia; eu posso viver sem você, mas não quero"
o amor não é uma necessidade doentia, é apenas um desejo incontrolável de estar junto - o tempo todo.

Thais disse...

Teus textos, todos, todos eles, são tão intensos que dói ler.

"Essa carta pode não mudar nada, ou pode mudar tudo. E dessa vez eu escolho arriscar."

Dá até raiva de você =D

Já te disse um milhão de vezes que você está perdendo tempo em não escrever mais né?

samanta disse...

gostei muito. boa sorte pros dois.

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