Uma carta.

Você bem que acha que ainda é cedo, eu sei. Me falta maturidade, beleza, charme... dá pra ver nos seus olhos que é assim que você pensa. Eu quero que saiba, no entanto, que temos tudo pra dar certo. Eu conheço de cor os seus medos. Sei que você teme o futuro, o compromisso. Você tem medo de se doar. Tem medo de não sobrar nada pra você. Eu sei, eu sei. Mas eu quero te dizer o que EU penso. Quero que conheça o MEU lado. Você acha que fico bem com suas meias-palavras? Pergunto-me sempre o que você quer mesmo dizer. Você mede as palavras como se fossem receita de bolo pronto: recua, mede, reinventa.

Às vezes acho que está tudo tão perfeito entre nós. Às vezes sinto aquela sintonia invejável. Sei que você se sente confortável comigo, mas também sei que isso te incomoda. Você não queria gostar de mim. Enfia defeitos onde não vê. Foge. Esconde-se que é para eu não saber tudo o que você realmente sente. É pra isso que escrevo hoje.

Eu quero te dizer que cansei de ficar nesse jogo de esconde-esconde. Eu quero que você me encare, quero que enfrente. Quero que saiba se vai ou não e que siga em frente com o que você decidir. Eu posso ser bom pra você, você sabe disso. Eu sou aquilo que tem dentro de você. Você me carrega contigo, e eu aproveito pra palpitar na tua mente nos momentos mais inoportunos, que é pra ver se você me dá um cadinho de atenção... Vai dizer que você nunca pensou em mim num banho relaxante, atravessando uma rua qualquer, no ônibus ou na fila do banco? Vai dizer que às vezes tudo o que você queria não era me guardar pra sempre contigo? Eu sei que sim. Então pare de mentir pra você.

Acontece que, assim como já disse, eu cansei dessa enrolação. Quero você de corpo e alma. Quero dedicação e até exclusividade se possível... Isso parece meio repentino e radical, não costumo agir assim... Geralmente aceito ficar esperando pela próxima chance de me conectar a você. Eu ajo como quem está satisfeito, mas é preciso um basta. Antes eu ainda tinha outras maneiras de ficar por perto. Você tinha mais tempo. Você tinha mais coragem. E você me carregava nos teus cadernos. A tua caneta sempre à mão. Tua vontade gigante e a minha entrega eram perfeitas juntas. Natti, ouça teu rascunho: não posso mais viver nessa renúncia.

Ainda lembro quando você começou a ficar assim tão crítica. Lembro-me de quando tentou abrir mão de mim pela primeira vez, mas no papel eu tinha um charme especial. Você me relia e algo dentro de você tinha dó de me amassar e me descartar. A vida mudou tanto desses tempos pra cá, não é? Eu gostava daquele quintalzinho ensolarado e do teu coração em chamas esquentando a minha criação. Você escrevia tão naturalmente, tão ingenuamente que me dava vontade de ser lido por aí. É, é isso que eu quero.

É que agora você tenta me ignorar. Abandonou o papel e a caneta. Ignorou os poemas. Finge não sentir saudade. Ocupa-se para não enfrentar o espaço branco. Dá medo, Natti, eu sei. Mas eu não quero mais ficar escondido nos cantinhos do seu HD. Isso me deixa tão vulnerável. Uma combinação de duas teclas e você nunca mais me vê. Acabou-se a mágica do papel. Acabou o carinho. Eu quero estar na sua mão de novo. Encosta-me no teu peito mais uma vez pra que eu possa sentir o calor. Lê-me em voz alta que é pra eu sentir a vida aí fora. Empresta-me pra alguém que é pra eu ver o mundo por outros olhos... ouvir outras risadas...sentir outros corações... criar outras idéias.

Natti, eu sinto saudade das tuas gavetas. Pelo menos, morando por lá, alguém fortuitamente passava as mãos e os olhos por mim... e eu, fácil do jeito que sou, às vezes contava alguns dos teus segredos. É que você traz uma pitada de magia para coisas pequenas e roubar um pouco disso não deve ser crime. Então eu só peço um bocado de atenção. Rabisca-me na parede da tua casa se preciso for. Sussurra-me nos ouvidos dos outros. Ponha-me em papel de pão, guardanapo, tanto faz. Registra-me. Mostra ao mundo que eu existo e eles saberão que eu sou parte tua. Deixa-me viver, moça. Só não me deixe ser mais um arquivo sem cor e sem vida dentro do teu computador.

Um sopro de carinho infinito,

Seu sempre Rascunho.


0 Rompendo o asfalto:

Seguidores