improvável

Ela antecipou todos os detalhes, escolheu a roupa cuidadosamente; experimentou cada peça para decidir o que ficava mais bonito no seu corpo. Cada vez que pensava naquele momento, sentia um tremor percorrer-lhe a espinha, e a imagem cravada na sua mente, vista naquela foto antiga e surrada, palpitava em suas pupilas. Era a primeira vez que ia encontrá-lo.
Na sua bolsa ia todo o peso da viagem, e no coração a leveza perturbada de quem sonha.

No caminho, o coração não lhe cabia. Não lhe cabia no corpo; o peito não aceitava tamanho descompasso. O brilho não se continha nos olhos. Os nervos não se mantinham quietos. A garota segurava a bolsa com força, como se pudesse depositar ali seu ligeiro desespero.

O sol lá fora punha sua expectativa em evidência. Não seria possível escapar, não haveria desculpa. Por alguns momentos ela quis que chovesse torrencialmente, para que pudesse culpar a natureza pelo fracasso do tão esperado encontro. Mas o sol brilhando lá fora iluminava seus medos e reforçava a ansiedade. Ela sempre sonhara em ver nele o reflexo do sol.

Seus olhos, perseguindo as imagens que passavam correndo pela janela, pousaram sutilmente naquele ponto distante que seria em segundos a imensidão. Os dedos trêmulos entregaram o dinheiro ao taxista e os mesmos dedos abriram a porta com sofreguidão. O tempo parecia passar numa dimensão outra que não aquela em que seu corpo gritava. Desceu devagar do carro, pôs os pés com cuidado naquele espaço tão novo e quente e macio. Ela, que até então olhava diretamente para o chão, levantou os olhos e o fitou com toda a intensidade possível num ser humano.

Eles se conheceram numa manhã ensolarada. O sol fazia com que a sua beleza parecesse imensurável. E de uma forma estranha, era mesmo imensurável. Num simples olhar ela sabia não ser possível abarcar toda a sua amplitude; seu jeito austero e misterioso a fazia tão pequena e fascinada... No entanto, sabia que seria dela a iniciativa. Ele estava lá, apenas esperando, como estivera por toda a sua vida. Olhar para ele, assim tão perto, era no mínimo perturbador. Envolvente. Assustador.

Dois passos longos e decididos a arrastaram para mais perto. O cheiro era absurdamente exótico. Tudo nele a atraía de uma forma quase dolorida; dolorida de medo e desejo. Um pequeno espaço os mantinha nesse transe. Ela, em chamas, e ele numa calma quase absoluta. Ele tinha calma porque sempre soube, ele sempre esteve por esperar. Ele carregava muita vida e ela apenas começando a viver.

E foi nesse desejo imenso de viver que ela acabou com a distância. Lentamente, chegou seu corpo junto a ele. Pedaço por pedaço do seu corpo foi tocado suavemente num ato de entrega. Cada espaço da sua alma foi inundada pelo infinito que ele oferecia. Ela e ele eram um só, num render-se mútuo e mudo. Não eram mais apenas uma mulher e o mar.




3 Rompendo o asfalto:

Brenda Matos disse...

Muito profundo o texto, amei *-*

E eu sempre fico a espera do improvável... que nunca acontece u_u

Malu, Paulo e Bianca disse...

o desejo de viver, nos leva a fazer coisas que não faríamos se estivessemos desacreditados u_u coisas improváveis :)

beijos, Bianca :*

Flávia Mazzêo disse...

Orgulho =*

Teu template ficou maravilhoso!

(L)

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