como se eu não soubesse

Eu olhei para ela com aqueles olhos aflitos que ela tanto acha graça.
- O que foi? ela perguntou num meio sorriso.
- É que tem uma coisinha palpitando em mim. Uma sensação estranha, mas gostosa. Uma vontade que não passa.
Ela sorriu daquele jeito leve e encantador. Dizem que conselho é querer ouvir algo que você não consegue aceitar sozinho. Vai ver é isso mesmo. Vai ver que eu precise que ela me diga o que eu tento esconder. E talvez eu queira que ela me diga daquele jeito todo especial, embora bruto, que me faz gargalhar e sentir o sangue fervendo no rosto.
- Será que é solidão? - eu disse, desviando os olhos para o chão.
- Solidão? Como pode ser solidão?
- Bem, não sei. Será que a solidão é possível mesmo carregando alguém pelo lado de dentro o tempo inteiro?
- Não, não acho que seja solidão. Mas essa confusão é tão típica de você... Você vive misturando sentimentos e conceitos, fantasias e trejeitos.
- Será saudade então?
- Saudade é conseqüência, ela é dependente. Saudade não existe por si só, entende? Se você tem saudade de uma brincadeira na infância é porque aquilo te marcou verdadeiramente. E te marcou porque você amava o cheiro da terra, os seus amigos, o sol se pondo. Amava a liberdade, as risadas e o garoto do fim da rua. A saudade depende de tantos outros sentimentos... Sentir saudade é um pouco de saber do que você gosta também.
Eu larguei os detalhes do tapete por alguns segundos e olhei em seus olhos. Ela fazia tudo tão simples. Mais uma vez ela sorriu, esperando a minha resposta. Silenciei do jeito que ela já conhece de cor. Ás vezes o silêncio é a resposta mais necessária.
- Pode ter um tanto de saudade nessa palpitação, ela disse numa gargalhada curta e descontraída. Mas se quer mesmo saber, isso é amor... Amar é carregar alguém pelo lado de dentro.

1 Rompendo o asfalto:

Hariane disse...

Parece-me que tem a introspeção necessária, cabível, completamente disponível de alguém neste texto.

Beijo

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