Ouvindo 'blá blá blá eu te amo'


“Uma noite ela me disse ‘quero me apaixonar’ como quem pede desculpa a si mesmo”


Na primeira vez que a música tocou me veio um aperto estranho no peito, daqueles que parecem que vão se diluir em lágrimas. E assim foi. Uma angústia estranha, um 'essa música é minha, droga!" e uma vontade de fugir de mim. A parte boa é que a minha bipolaridade (pra ser boazinha comigo, já que eu bem sei que seria multipolaridade) me levou a sentir outras milhões de coisas lá pela quarta vez que ela invadia os meus ouvidos.
É claro que eu não espero nenhuma coerência desse texto enquanto a música ainda toca. Não estou em pleno controle da parte que escreve agora. Eu(s) só preciso escrever... que é pra ver se eu entendo, que é pra ver se passa.

Algo dentro de mim me corrói e me cobra. Algo me diz que eu mereço paixão, borboletas no estômago e arrepios involuntários. Uma parte de mim me convence que eu tenho isso tudo, mas que estou na contramão. Outra parte diz que eu me convenço disso e que na verdade está tudo assim tão divertido como está. Síndrome Walt Disney X feminismo.

Uma Nathália quer estar loucamente apaixonada e quer isso tudo de volta. A outra está bem com o momento e carrega uma paz infinita. Pela lógica, a segunda é bem mais confortável de se aturar. A questão é que de vez em quando aquela chatinha que devora muito romance fica insegura e quer as benditas borboletas espalhadas por todos os cantos. Ela quer essas surpresas que nos fazem sorrir do nada, no meio da rua e na fila do ônibus. Ela quer algumas certezas e sentimentos. Ela quer que ele diga. Ela quer que ele sinta. Ela quer os defeitos dele, quer acabar com o medo e a insegurança. Quer futuro. Quer pôr-do-sol em plena noite de lua cheia. Quer dividir, somar. Quer segurar nas mãos dele. Ela quer dizer que estar com ele faz dela uma pessoa melhor e que ele traz vida aos momentos de sobrevivência. Ela quer esperar até que ele esteja pronto, ela realmente acredita que pode. Ela quer com TANTA intensidade que ele nunca imaginaria o que existe por trás de um 'estou bem'. Ela quer se perder naqueles olhos castanhos ser ter que voltar por precaução. Quer se envolver com a alma sem receio. Ela quer ser o sorriso depois de um dia cansativo, o abrigo, o suspiro. Ela quer ser.

"Reconheço que ele me deixa insegura

Sou louca por ele e não sei mais o que falar
O que eu quero
E que ele quebre a minha rotina
Que fique comigo e deseje me amar"

A outra, por sua vez, acha que depois de tudo que passou não pode e não deve mais sentir esses bichinhos chatos roçando o seu estômago. Ela ainda se sente árida. Não gosta dos suspiros involuntários que a fazem parecer uma idiota. Detesta essa história de paixão e pode viver sem o depois. Ela quer diversão, alegria e felicidades momentâneas. Não quer seu sorriso atrelado e espelhado nos olhos de ninguém. Ela tem medo porque sentiu dor demais. Tentou demais. Acreditou demais. Às vezes ela tenta queimar esses livros idiotas que dizem que as mulheres precisam de paixão pra viver, e, pra se fortalecer lê Martha Medeiros e psicanalistas feministas. Ela não se entrega mais. Esconde-se, esquiva-se e corre se preciso. Ela deseja, mas ela não quer. Ela deseja a leveza e a paz do esporádico. Celebra o auto-controle e detesta as malditas mídias digitais que favorecem ações impulsivas e irremediáveis. De vez em quando é amarga e mal-humorada. Ela não quer sorrir, ela não quer primavera, nem pôr-do-sol. Ela quer prosa, não poesia.

________________________________________________________________

Agora, a música deve estar tocando pela 30ª vez. E agora, pelo menos agora, eu preciso dizer que eu adoro te ouvir sussurrando teus desejos no meu ouvido, mas eu também desejo o 'algo a mais'. E apesar de saber que eu posso ter noites densas e especiais, lá, em algum espaço dentro de mim, eu desejo "alguém pra me amar,inclusive, num meio-dia tranqüilo e comum."

Paro por aqui, sabe-se lá onde esses meus eus podem me levar.


0 Rompendo o asfalto:

Seguidores