Sopro de vida


- Mãe, que cara é essa?
- Nem sei como dizer...você não sabe quem morreu...

Meu coração gelou. Pensei em todas as pessoas que amava num piscar de olhos. Lembrei que não tinha visto meu pai naquele dia. Eu só pensava nele. As imagens se transpunham na minha cabeça. Um desespero total. Pensei nas nossas brincadeiras, nas broncas, nos passeios... Antecipei ressentimentos. Doeu cada beijo não dado, cada conversa perdida, cada repreensão mal recebida. Me torturaram os conselhos ignorados, as pizzas rejeitadas, os churrascos que eu nunca ia, a sua doença escondida no silêncio dos nossos encontros... Fiquei sufocada de pensar nas nossas despedidas frias de gente que não sabe dizer o quanto ama, de gente que tem medo de tocar, de sentir, de baixar a guarda. Acreditar que as pessoas sabem que as amamos é se enganar, principalmente quando nunca dizemos.

Tudo o que eu não havia dito até então começou a fervilhar na minha mente e me surgiu uma vontade louca de abraçar de novo, de sentar no seu colo e contar sobre a escola, ouvir piadas, lição de moral, rir das críticas aos namorados e pretendentes. Era uma saudade que apertava o peito e martelava a consciência. E num instante, que me pareceu a eternidade, chegou o choro. Doído, verdadeiro, caótico, mortal. Era um pedaço meu, só meu, que ia embora com as lágrimas.

Abracei minha mãe. Os braços tremiam, os soluços aumentavam e então ela disse:
-Calma, não fica assim. Foi a Dona Carminda... tão de repente. Ela sofria do coração, foi levada ontem e... Pensar que anteontem ela trouxe bolo pra gente e estava tão bem...
Suspirei. Acho que minha mãe nem percebeu. E foi um suspiro de profundo alívio. Era só a vizinha, já senhora e doente. No primeiro instante não senti a crueldade do meu pensamento. E não me importava muito naquele momento. Meu pai estava bem e toda a minha mágoa passava devagar. Quando ele chegasse iria agarrar o pescoço dele e dizer que queria conversar até não aguentar mais de sono; talvez marcar um churrasco e pedir uma pizza. Vontade imensa; mas vontade é coisa que dá e passa. E ele estava demorando demais.


Meia hora depois ele bateu na porta. Abri; os olhos brilhando, mas a 'frieza' de sempre.
-Oi, pai.
-Oi.
Ele entrou, sentou e ligou a tv. Futebol pra variar. E a covardia, a incapacidade de expressar os sentimentos, minha e dele, me fizeram engolir tudo o que eu tinha a dizer. O 'eu te amo' desceu goela abaixo levando consigo os beijos prometidos. Sabe, o amor é um nó que dá na garganta e desce pro coração. Tem gente que consegue soprá-lo de vez em quando, tem gente que não.


Imagem em:http://mblunck.spaces.live.com

1 Rompendo o asfalto:

Nelson disse...

Acho que você não se dá conta da maestria com que rege as palavras.

Cheguei a ficar ansioso com o desfecho do texto, suspirei fundo enquanto não me dava conta do que era fictício ou verídico.

Não deixe suas palavras dormirem numa gavetinha escura, elas ficam muito mais bonitas aqui. E podem saciar uma mente ávida de um leitor tão quanto um prato de comida no fim do dia de um trabalhador.

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