Incondicional



Trrrrriiiiimmmmmm!
Já passava das 23h, e eu no quinto estágio de sono, relutante, levantei para atender. Ele não tinha noção de hora mesmo. Era terça-feira e no dia seguinte eu tinha palestra às 07h. Mas eu não sei dizer não, muito menos para ele.

- Alô, já tava dormindo?
- Hummm... nãooo.
- Será que eu posso ficar um pouquinho com você?
-Tá. Sem problema.

Eles tinham brigado outra vez. E ele precisava desabafar, me contar como tinha sido. Precisava me falar dos insultos e gritos espalhados pela vizinhança. Precisava que eu garantisse que ele estava certo, que no fim das contas ela era uma megera. No meio dos detalhes talvez ele recebesse um olhar atencioso, um carinho, um sorriso... Ele precisava mesmo é de um amor incondicional e por isso aparecia de vez em quando.

Eu aceitei que ele entrasse sem muito entusiasmo; os olhos ardiam e corpo implorava pra voltar à cama. Deixei a casa à meia-luz pra disfarçar as minhas fraquezas, pra fingir que não enxergava as dele. Ele sentou e eu pedi licença pra me trocar. Não queria que ele se sentisse desconfortável, afinal eu estava de camiseta e calcinha.
Fui para a cozinha, tentei inventar alguma coisa rápida pra ele comer. –Aposto que a outra não tinha alimentado o coitado. Preparei uns sanduíches com fatias de frango, do jeito que ele mais gostava, fiz um suco e levei uma garrafa de vinho para a sala. Liguei o som baixinho pra acalmar os ânimos...

-Então, o que aconteceu?
- Ah, ela não me entende. Não adianta. Eu só queria assistir a merda do futebol.
- E por que não assistiu?
- Ela deu crise. Disse que eu chego do trabalho e penduro na televisão, que não ligo mais para ela. E ficou reclamando, reclamando...
- É... que chato, né?

Eu não queria tomar partido. Só queria vê-lo feliz, não importava o quanto custasse. Ele atacou o vinho e desembocou a falar e falar e falar. Já não estava mais prestando atenção, aquilo parecia tão banal. Eu o olhava admirada enquanto ele assistia ao ESPN. Eu me perguntava de onde vinha tanto amor. Só de ver que ele estava melhorando meu coração sorria. Não adianta repreender, ele sempre acha que tem a razão. Mas na verdade custava dar atenção a ela? Custava deixar o futebol de lado por um dia e levá-la pra sair? Acho que custava sim. Ela não o vê como eu vejo. Ela não o ama como eu. Ela não entende que tudo que ele quer depois de um dia cansativo de trabalho é ver os gols da semana, comer alguma coisa, tomar um banho e deitar com ela.
Já eram duas da manhã e não sei quem se deixou parecer cansado primeiro. De qualquer forma os sanduíches já tinham desaparecido, assim como as garrafas de vinho do meu armário da cozinha. Eu levei os copos pra mesa da copa e quando voltei, ele já estava de pé. Os olhos vermelhos, o corpo pesado e o bocejo escapulindo pelo canto esquerdo da boca.

-Te ligo amanhã, tá?
-Tá.
-Boa noite linda.
- Boa noite, pai. Dorme com Deus.


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